pode ser isso ou aquilo

A fotografia motiva a escrita. O texto motiva a captura.

7.

chove.

as árvores insistem em molhar, gota a gota, o teu imenso cabelo que repousa sobre os ombros morenos desnudados.

o olhar desvia para a esquerda, para a direita, outras vezes para baixo. a ansiedade aumenta.

o vento insiste em largar mais gotas de água sobre a tua pele, despreocupadamente descoberta.

as gotas que das árvores caem rapidamente se misturam com as lágrimas que lentamente  descem o teu rosto.

não há ninguém na rua, nem o pequeno pássaro que na tua chegada se abrigava das pequenas gotas que enchiam a árvore de transparências e tornavam os seus ramos pesados. estás só.

o cachecol que timidamente te aperta o pescoço é insuficiente para esconder o arrepio. os braços cruzam-se, apertam-se como se imaginasses um abraço longo e quente daquele que ainda não chegou. será que vem? será que desistiu ou esqueceu?

o desprezo por ti imaginado aperta-te o peito contra o tronco da árvore, as gotas já não são frias sobre a tua pele quente.

olhas a direita, a esquerda, para o céu e depois para o chão. entre gotas e lágrimas vês o teu reflexo na poça de água a teus pés formada.

– sorri, afasta o cabelo, olha a árvore. antes de chover estava seca e cheia de vida.

 

Pedro Miguel Dias

6.

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- Reverência e quietude 
                                                                    Ângela Magalhães

pés descalços, almas cheias de amor para dar, vento quente, morna, areia deforma no último banho do dia…

há muito que a fogueira apagou. faz muito tempo que o vodka terminou. o rádio insiste na dança quente dos corpos, colados pelo suor após noite em clausura, entre cabelos ondulados e lábios carnudos.

a porta frágil abre-se, com os pequenos dedos dela segurando o frágil fecho, pondo a nu a nossa presença nua. o chão molhado e fresco lá fora pede o mergulho, de cabeça. o abrir de olhos suave, ainda colados pela força do sonho e do desejo de prolongar a estadia por mais umas horas.

– como estás?

– com saudades tuas.

– juntos há mais de 9 horas e tens saudades minhas?

– no meu sonho tu não entravas e a minha memória levou-me para outras planícies, mais áridas, sombrias. era noite, os lobos perseguiam-me. (o beijo)

os corpos suados afastavam-se na tentativa de respirar e deixar que a brisa matinal percorre-se o meio dos seus corpos. num só movimento ela deixa os seus lábios cheios tocar o sol que lá fora nascia.

– vens? preciso acordar.

– se prometeres não largar a minha mão vou.

– vês? entre aquelas duas ilhas? quero lá viver… (silêncio)

por breves momentos ela larga a mão que agarrava para passar as suas mãos, agora molhadas, pela cara e para ordenar o cabelo. abraço entre corpos, abraço entre dois ideais, abraço entre um só querer. as mãos apertam, os olhos fixam naquele lugar, lá no horizonte…há um último olhar para a tenda onde passaram a noite.

– faz sentido! (sussurram os lábios carnudos)

                                                                 Pedro Miguel Dias

 

5.

blog5
Ângela Magalhães

a música toca suave nos corações de quem a ouve.

ele passa as mãos, secas pelo frio, nos cabelos dela, secos pelo calor do país onde passou férias.

encontram-se como de costume no café onde se conheceram. hábitos que não mudam. a segurança de lugar para eles é a coisa que mais prezam. no café, no autocarro, no teatro, não gostam de ficar expostos aos olhares, ainda que indiferentes, de pessoas que não conhecem. a música muda.

a insegurança deles reflecte-se no que pedem para beber: ele com mãos frias pede um chá gelado; ela regressada do calor pede um chá quente. pedem do mesmo bolo de chocolate, exposto aos olhos de todos em cima do balcão, mas coberto por vidro baço.

certificam-se que os talheres e pratos estão impecavelmente limpos. os guardanapos são colocados em cima do prato e não em cima da mesa.

mexem o chá com ritmo certo, num completo desacordo com a música que toca nas colunas de madeira. nervosos.

o chá ainda fumega na chávena dela. num ápice o chá começa a fumegar na sua garganta, provocando a sensação de ‘breve passagem pelo inferno’. mas ela nunca pecou. apenas gosta do chá quente em chávena escaldada e impecavelmente limpa. branca de preferência.

ele bebe gelado o seu chá de menta com ligeiro travo a hortelã. o frio aperta-lhe as costelas, faz tremer a língua,  contrai o maxilar. mas o olhar dele para ela não muda. continua gelado, o olhar dele nos olhos dela… a hortelã lembra-lhe o campo. deseja lá voltar e assim terminar os seus dias. mas tem medo que os ares do campo o façam viver mais que o necessário.

falam sobre dança e sobre o próximo projecto que querem realizar juntos. os cabelos loiros dela dançam enquanto fala. os dele, pousados sobre a sua cabeça, acompanham o mexer dos seus lábios, muito quietos, de alguém que fala só o necessário e com a dicção correcta, típico de alguém que com frio pede chá gelado.

os seus corações mexem à velocidade das colheres nas chávenas de chá. a música que toca tosca nas colunas antigas de madeira pretende unir, mas inglória.

Pedro Miguel Dias

4.

blog4– Esta manhã, todas as manhãs –

                                                                                                                            Ângela  Magalhães

abri os olhos. a almofada ainda retinha as tuas marcas de 10 horas passadas. a janela aberta deixava passar as nuvens cinzentas mas vazias. o cheiro do teu perfume persistia em não deixar em paz as minhas mãos, as minhas lágrimas dos olhos que doem a abrir perante a claridade.

um acordar testemunhado pelos pássaros que no parapeito da janela aguardavam o sol quente, a brisa perfeita para os fazer planar, livres.

a brisa do mar entrava na nossa casa. a luz do sol, tímida, obrigava-me a cerrar os olhos e a expressar algo com os lábios, talvez entendido pelos mais especialistas como se de um sorriso se tratasse.

aquele silêncio que se instalava agora era antes preenchido pelo toque dos teus lábios nos meus, num longo e feliz acordar. mas hoje foi diferente.

parece que tudo se conjuga para que o levantar seja mais rápido que o habitual.

as nuvens, os pássaros que insistem em não voar, as ondas que quase inaudíveis batem na areia, o cheiro do pequeno almoço que não existe.

num só movimento levanto o tronco dorido, após um longo período a sonhar. vejo que deixaste para trás aquilo que mais aprecias vestir quando decides beijar o dia na varanda.

surpresa: estás sentada na cadeira de verão com o teu cigarro, apenas.

– madrugamos hoje.

– não te quis acordar. decidi esperar que as nuvens passassem para começarmos o dia.

os pássaros levantam voo, o sol aparece forte, as ondas revoltam-se, o beijo.

                                                                                                                             Pedro Miguel Dias

3.

blog

Ângela Magalhães

congelamos o olhar em milhões de segundos.

a música que suave faz estremecer corações atentos e disponíveis, a manta que cobre as nossas cabeças, o beijo que no escuro se transforma num longo e intenso abraço.

as horas são transformadas em dias, que só no relógio contam a verdade.

as nossas mentes esquecem aquele fim de verão traiçoeiro, que nos desarmaram como um tiro de uma arma perigosa e mortal. caímos, mas voltamos. o inverno frio aparece, a chuva que teima em não deixar os corpos divagarem pela areia. falamos de praias desertas em dias rapidamente enganados pelos ponteiros, num relógio de parede que mesmo estando virado do avesso continua a marcar as horas e minutos.

as falésias abafam todo e qualquer salto para a monotonia, para o desassossego.

limpámos as lágrimas à camisola que nos cobre o peito gelado e os braços que tremem. e sorrimos, num abraço que adormece. e por fim respiramos até doer as costelas. o dia acorda quente e as nuvens antevêem a tua partida.

mas nada me falta, nada me sobra. tudo se compõe.

Pedro Miguel Dias

2.

Estranha Cumplicidade

– estranha cumplicidade –

                                          

Ângela Magalhães

– tens horas?

– depende. para que queres saber as horas?

o sol vai longe. o fim das horas está próximo. ao cair da noite nada nos impede de soltar amarras e esquecer o relógio até à manhã seguinte.

a distância que nos separa é a mesma que daqui para a outra margem.

– boa pergunta. o barco já partiu. o inicio do sono está a chegar. tens fome? podíamos jantar juntos.

– 18h43

– reparaste se o barco ia cheio?

– sei que partiu com 2,43 minutos de atraso.

– perdi-o. esqueci as horas.

– o próximo só de manhã, às 7h15.

esperamos os últimos raios de sol que nos farão atravessar a nado para a outra margem. os ombros inclinam-se para a cima, o peito enche de ar. mergulho. olho para trás e tu nada. sentado, olhas o relógio. nado de costas para te olhar, nos olhos. as margens estão agora à mesma distância. a visão turva.

seco, já na outra margem, e tu continuas a olhar o relógio… nem um olhar para o rio,nem para os barcos de recreio nem para os cabelos que esvoaçantes vão.

estás aí e pareces estar bem.

Pedro Miguel Dias

1.

A minha adaptação ao texto.

Ângela Magalhães

o inicio de tudo:

balançamos lado a lado, atrás no tempo. falamos de viagens de comboio e despedidas. e não te tornei a ver. terá ficado tanto por dizer e tanto por olhar.

pensei que, talvez, não existisses, fruto de uma qualquer droga que alucina a minha imaginação e toda aquela noite teria sido uma viagem do meu desejo.

o passadiço leva-nos a novos cais, a novas areias. encontro-te deitada na pedra, aquecida pelo sol e de sorriso permanente. os teus cabelos estão mais longos, a pele mais escura, queimada pelo sol de outono.

o espírito livre conduz-me a um novo olhar, cerrar os olhos até no horizonte tudo parecer uma dança com ritmo certo. do mar até às árvores distam alguns metros. à sombra aguardo a tua voz serena num convite claro ao embalo. os enormes olhos castanhos, o intenso cheiro a mar, o solidão de uma praia quente, os meus braços, o meu cabelo esvoaça.

Pedro Miguel Dias